Número recorde alcançado em agosto de 2026 acumula R$ 244,4 bilhões em dívidas negativadas. Micro e pequenas empresas são as mais atingidas, enquanto pesquisas da FGV e CNC indicam desafios persistentes no ambiente de negócios.
O Brasil alcançou a marca de 9,3 milhões de empresas inadimplentes em agosto de 2026, segundo levantamento da Serasa Experian divulgado em 21 de outubro. O número representa um crescimento de 14,3% em relação ao mesmo mês de 2025 e estabelece um novo recorde na série histórica do indicador.
O valor acumulado das dívidas negativadas chegou a R$ 244,4 bilhões, distribuídos em 68,2 milhões de pendências financeiras.
O levantamento chama a atenção para a situação financeira do setor produtivo brasileiro, especialmente dos negócios de menor porte, que concentram a maior parte dos registros de inadimplência.
Quantas empresas estão inadimplentes no Brasil?
Os dados da Serasa Experian detalham a dimensão do endividamento empresarial no país:
- 9,3 milhões de empresas inadimplentes;
- R$ 244,4 bilhões em dívidas negativadas;
- 68,2 milhões de registros de dívidas em atraso;
- 7,4 dívidas, em média, por empresa negativada;
- R$ 26.355,13 de dívida média por CNPJ;
- 14,3% de crescimento no total de inadimplentes em 12 meses.
A Serasa considera inadimplente a empresa que possui pelo menos um compromisso financeiro vencido e cujo não pagamento foi formalmente comunicado pelo credor. Portanto, o indicador reflete os registros formais de inadimplência identificados pela instituição, e não a totalidade das dívidas existentes na economia.
Pequenas empresas concentram a maior parte das dívidas
As micro e pequenas empresas são as mais afetadas pela alta da inadimplência. Segundo a instituição, 8,8 milhões de CNPJs inadimplentes pertenciam a esse segmento, somando R$ 211 bilhões em débitos negativados. Em média, cada micro ou pequena empresa negativada acumula sete pendências financeiras.
Negócios menores operam frequentemente com margens de caixa reduzidas. Ao enfrentarem atrasos de clientes, elevação de custos operacionais ou entraves no acesso ao crédito, essas empresas possuem menor capacidade de absorver choques financeiros, o que compromete o pagamento a fornecedores e a continuidade das operações.
Quais setores lideram a inadimplência?
O setor de serviços concentra a maior fatia das empresas com registros de inadimplência. A distribuição por setor econômico mapeada pela Serasa Experian mostra:
- Serviços: 56,0%
- Comércio: 32,0%
- Indústria: 8,0%
- Setor primário: 0,9%
- Outros segmentos: 3,1%
Nota: Os percentuais indicam a participação de cada setor no total de empresas inadimplentes registradas, e não a proporção de empresas endividadas dentro de cada segmento.
Juntos, serviços e comércio correspondem a 88% dos CNPJs negativados no país.
O que explica a alta das dívidas em atraso?
A Serasa Experian aponta a permanência de condições financeiras restritivas como o principal fator de pressão, sobretudo para os pequenos negócios. O custo elevado do crédito e a retração na liquidez dificultam a renegociação e a liquidação das dívidas.
A economista-chefe da instituição, Camila Abdelmalack, ressalta que os recuos recentes nas taxas de juros ainda não foram suficientes para alterar de forma substancial as condições financeiras do setor empresarial.
A busca por crédito cresceu 11,2% no acumulado de 12 meses até agosto. Segundo a análise técnica, no atual cenário, esse movimento reflete em grande medida a necessidade de sustentação do caixa operacional, e não apenas projetos de expansão ou novos investimentos.
O que outros indicadores revelam sobre o ambiente de negócios?
O recorde de inadimplência é acompanhado por outros sinais de moderação na atividade econômica:
- Confiança Empresarial (FGV IBRE): Em setembro de 2026, o Índice de Confiança Empresarial recuou 1,2 ponto, situando-se em 89,3 pontos, diante de expectativas mais cautelosas sobre a demanda.
- Indústria x Comércio: Em outubro, a confiança da indústria engatou a terceira queda consecutiva (atingindo 91 pontos), enquanto o comércio ensaiou recuperação e o setor de serviços permaneceu estável.
- Endividamento das Famílias (CNC): Em setembro, 81,7% das famílias brasileiras relataram dívidas a vencer, com 29,6% apresentando contas em atraso. Embora a inadimplência das famílias tenha recuado marginalmente naquele mês, o nível de comprometimento de renda dos consumidores segue elevado.
Impactos sobre investimentos e empregos
Diante do acúmulo de dívidas, as empresas tendem a adotar estratégias de preservação de caixa, o que inclui a revisão de custos, o adiamento de contratações, a suspensão de investimentos e a renegociação com fornecedores.
Contudo, especialistas destacam que estatística de inadimplência não é equivalente a falência. O indicador da Serasa isoladamente não permite prever o encerramento de atividades, processos de recuperação judicial ou o aumento do desemprego nacional — métricas que dependem do acompanhamento contínuo dos dados oficiais de emprego e produto interno bruto (PIB).
Concentração geográfica: estados com mais empresas negativadas
A Região Sudeste lidera o volume absoluto de empresas negativadas, refletindo sua maior densidade de negócios registrados. Os cinco estados com maiores números em agosto foram:
- São Paulo: 3.173.156
- Minas Gerais: 927.374
- Rio de Janeiro: 879.915
- Paraná: 613.012
- Rio Grande do Sul: 539.319
Perspectivas para os próximos meses
A trajetória da inadimplência empresarial nos trimestres seguintes dependerá diretamente da evolução das taxas de juros, do ritmo das vendas e da capacidade de pagamento do consumidor final. As próximas divulgações da Serasa Experian indicarão se o pico observado em agosto representa um topo na série histórica ou se a pressão sobre o caixa das empresas continuará nos meses subsequentes.
