Como identificar Vídeos falsos com IA nas eleições 2026? A inteligência artificial tornou possível produzir vídeos, fotografias e gravações de voz capazes de representar situações que nunca aconteceram. Nas eleições brasileiras de 2026, o uso dessas tecnologias esteve entre as preocupações da Justiça Eleitoral, que ampliou regras de identificação de conteúdos sintéticos e adotou medidas para combater a desinformação.
O tema ganhou relevância durante a campanha presidencial e permanece importante após o segundo turno, realizado em 25 de outubro. Publicações antigas, imagens fora de contexto e materiais produzidos artificialmente podem continuar circulando nas redes sociais, inclusive quando apresentados como provas de acontecimentos políticos.
Em outubro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou a retirada de publicações e criou uma estrutura especializada para auxiliar na investigação de possíveis manipulações digitais. A medida reforça um desafio para usuários de WhatsApp, Instagram, Facebook, TikTok e outras plataformas: como saber se um vídeo político mostra um acontecimento verdadeiro?
A resposta exige mais do que observar a aparência da imagem. Com o avanço da tecnologia, algumas manipulações podem ser difíceis de identificar apenas olhando para a tela.
O que são deepfakes e como a inteligência artificial pode manipular vídeos?
O termo deepfake é utilizado para descrever conteúdos audiovisuais artificialmente produzidos ou alterados, frequentemente com técnicas de inteligência artificial, para representar pessoas dizendo ou fazendo algo que não aconteceu daquela maneira.
Uma ferramenta desse tipo pode modificar a expressão facial de alguém, substituir sua voz, produzir uma fala inexistente ou criar uma cena aparentemente realista.
Em situações envolvendo figuras públicas, esse recurso pode ser utilizado para fabricar declarações, reproduzir entrevistas que nunca ocorreram ou atribuir comportamentos inexistentes a determinada pessoa.
Entretanto, nem todo conteúdo criado por inteligência artificial é necessariamente enganoso. A tecnologia também pode ser utilizada em produções artísticas, materiais educativos, simulações e conteúdos humorísticos.
O problema surge quando uma representação artificial é divulgada como se fosse um registro autêntico, especialmente quando pode induzir o público a acreditar em informações falsas.
Por que é tão difícil identificar um vídeo falso?
As primeiras gerações de vídeos manipulados frequentemente apresentavam falhas perceptíveis, como movimentos artificiais, rostos deformados e diferenças entre o áudio e os lábios.
Essas inconsistências ainda podem existir, mas não são garantidas.
Ferramentas mais avançadas conseguem reproduzir detalhes de iluminação, movimentos faciais, entonação de voz e características visuais com maior realismo.
Isso significa que um vídeo aparentemente natural não deve ser considerado verdadeiro apenas porque não apresenta defeitos visíveis.
Da mesma forma, uma gravação com baixa qualidade não deve ser classificada automaticamente como falsa.
A análise da origem e do contexto é tão importante quanto a observação das imagens.
TSE determinou retirada de publicações com uso irregular de IA
Um caso concreto ocorreu em 8 de outubro de 2026, quando o TSE determinou, por unanimidade, a remoção de três publicações feitas por Flávio Bolsonaro na plataforma X.
A decisão ocorreu após representação apresentada pela Federação Brasil da Esperança, que questionou conteúdos associados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
De acordo com o tribunal, uma das publicações utilizava inteligência artificial para representar Lula em uma situação inexistente.
O ministro André Mendonça, relator do processo, destacou que o conteúdo não apresentava a identificação exigida para materiais políticos produzidos ou manipulados por IA.
As outras duas publicações foram analisadas por associarem o então pré-candidato a organizações criminosas sem base factual mínima, segundo os fundamentos adotados pela Corte.
O julgamento demonstra que existem diferentes formas de produzir conteúdo eleitoral irregular: desde imagens sintéticas sem identificação até publicações que apresentam informações descontextualizadas.
A decisão não significa que toda sátira política ou todo material criado com IA seja proibido. A avaliação depende das regras aplicáveis, do conteúdo e de suas circunstâncias.
O episódio também reforça a importância de acompanhar o funcionamento das ferramentas de inteligência artificial utilizadas por grandes plataformas. Em outra reportagem, o Central da Notícia abordou a falha da inteligência artificial da Meta durante as eleições, envolvendo informações sobre Lula e Flávio Bolsonaro.
Como identificar vídeos e imagens manipulados por IA?
Não existe um único teste visual capaz de comprovar a autenticidade de todas as gravações. Ainda assim, alguns procedimentos podem ajudar a identificar materiais suspeitos antes que sejam compartilhados.
1. Confira quem publicou o conteúdo primeiro
O primeiro passo é descobrir a origem da gravação.
Uma suposta declaração de um candidato, por exemplo, pode ser confrontada com entrevistas completas, transmissões oficiais, canais institucionais ou veículos jornalísticos confiáveis.
Quando um vídeo aparece apenas em perfis desconhecidos, sem indicação de data, local ou fonte, é recomendável redobrar a atenção.
Também é importante verificar se a publicação apresenta o registro original ou apenas um trecho editado.
Uma forma de realizar essa verificação é consultar a cobertura original das declarações. O Central da Notícia, por exemplo, publicou uma reportagem sobre as entrevistas dos candidatos no Jornal Nacional, permitindo que o leitor encontre informações contextualizadas sobre as manifestações de Lula e Flávio Bolsonaro.
2. Observe se áudio e imagem apresentam inconsistências
Alguns conteúdos manipulados podem apresentar problemas na sincronização entre movimentos da boca e palavras pronunciadas.
Outros sinais incluem alterações incomuns na iluminação do rosto, mudanças abruptas de expressão, voz artificialmente uniforme ou falhas nas transições entre imagens.
Entretanto, esses elementos são apenas indícios.
Problemas de compressão, conexão, iluminação e edição convencional também podem provocar distorções em vídeos verdadeiros.
Por isso, identificar uma possível falha visual não substitui uma verificação da fonte.
3. Pesquise a imagem em outras fontes
Ferramentas de busca reversa de imagens podem ajudar a localizar fotografias semelhantes publicadas anteriormente.
Esse procedimento é particularmente útil quando uma imagem antiga reaparece acompanhada de uma legenda que a associa a um acontecimento recente.
Uma fotografia verdadeira de outro ano, por exemplo, pode ser compartilhada como se tivesse sido registrada durante as eleições de 2026.
Nesse caso, o problema não está necessariamente na fabricação da imagem, mas na apresentação de um contexto falso.
Para vídeos, também é possível capturar uma imagem de determinado trecho e pesquisar se aquele quadro aparece em publicações anteriores.
4. Desconfie de declarações surpreendentes sem confirmação
Vídeos que atribuem confissões, acusações graves ou declarações extraordinárias a figuras públicas exigem verificação adicional.
Quanto maior o potencial de repercussão de uma suposta revelação, mais importante é buscar confirmação independente.
Uma declaração realmente relevante tende a gerar registros verificáveis, respostas dos envolvidos ou cobertura jornalística.
A ausência dessas confirmações não prova que a gravação seja falsa, mas indica que seu conteúdo ainda não deve ser tratado como um fato estabelecido.
5. Verifique se existe identificação de conteúdo produzido por IA
A legislação eleitoral brasileira exige, em determinadas situações, que materiais de propaganda produzidos ou significativamente alterados por inteligência artificial sejam identificados de maneira explícita, destacada e acessível.
Essa identificação pode variar conforme o formato da publicação.
No entanto, a presença de um aviso não comprova que todas as informações apresentadas sejam verdadeiras.
Da mesma forma, a ausência de identificação não permite concluir, isoladamente, que determinada imagem foi produzida artificialmente.
6. Consulte verificações e informações oficiais
Antes de compartilhar uma publicação suspeita, procure saber se o conteúdo já foi analisado por uma instituição confiável ou por profissionais de checagem de fatos.
A conferência de informações oficiais também é importante quando circulam mensagens sobre mudanças no processo eleitoral. Antes do segundo turno, por exemplo, foram anunciadas alterações nos endereços de milhares de seções eleitorais. O Central da Notícia explicou como consultar o local de votação no segundo turno de 2026, utilizando os canais oficiais da Justiça Eleitoral. O caso mostra a importância de verificar informações diretamente nas fontes institucionais, em vez de confiar apenas em mensagens compartilhadas nas redes sociais.
O TSE mantém a iniciativa Fato ou Boato, que reúne informações verificadas sobre o processo eleitoral brasileiro.
É importante diferenciar uma publicação classificada como falsa de outra que ainda não foi verificada. A inexistência de uma checagem não representa confirmação de autenticidade.
Quais são as regras para o uso de inteligência artificial nas eleições?
Para as eleições de 2026, o TSE atualizou a regulamentação sobre propaganda eleitoral e conteúdos sintéticos.
As regras previstas na Resolução nº 23.610/2019, com alterações introduzidas pela Resolução nº 23.755/2026, estabelecem obrigações de transparência para conteúdos políticos ou eleitorais criados ou significativamente manipulados por inteligência artificial.
A norma também prevê restrições específicas a novos conteúdos sintéticos que utilizem imagem, voz ou manifestações de candidatos e pessoas públicas no período de 72 horas anteriores e 24 horas posteriores ao término do pleito.
Essa restrição temporal possui alcance específico e não deve ser confundida com uma proibição permanente de toda utilização de IA em conteúdos políticos.
Outra regra proíbe o uso de materiais fabricados ou manipulados para divulgar fatos notoriamente falsos ou descontextualizados com potencial de prejudicar o equilíbrio eleitoral ou a integridade do processo.
As disposições também estabelecem mecanismos para remoção de conteúdos irregulares e análise de responsabilidades.
Justiça Eleitoral criou estrutura especializada para investigar manipulações
No dia 8 de outubro, o TSE anunciou a criação do Núcleo de Forense Digital, destinado a apoiar avaliações técnicas de materiais cuja autenticidade, integridade ou procedência precisam ser investigadas.
A estrutura foi instituída pela Portaria-TSE nº 667/2026.
Sua atuação envolve situações que exigem análise especializada de imagens, áudios, vídeos e outros materiais digitais potencialmente manipulados.
O tribunal também organizou uma Sala de Atenção a Riscos Digitais, com participação de representantes de plataformas digitais, para agilizar a identificação e o encaminhamento de ocorrências relacionadas à integridade eleitoral.
Segundo o planejamento divulgado pelo TSE, essa sala funcionaria entre 24 de outubro e 4 de novembro.
A existência dessas estruturas demonstra que a verificação de autenticidade pode exigir conhecimento técnico, análise do arquivo original e investigação de sua circulação.
Recebi um vídeo suspeito no WhatsApp. O que devo fazer?
O WhatsApp e outras plataformas de mensagens permitem que uma gravação seja compartilhada rapidamente entre grupos, amigos e familiares.
Quando o material envolve uma acusação política, um suposto comunicado oficial ou uma declaração potencialmente falsa, a decisão mais segura é interromper o compartilhamento até encontrar informações confiáveis.
O usuário pode adotar as seguintes medidas:
- Procurar a publicação original e verificar sua data.
- Conferir se a declaração aparece em fontes independentes.
- Pesquisar imagens ou trechos do vídeo para identificar publicações anteriores.
- Consultar canais oficiais e serviços de checagem.
- Evitar encaminhar conteúdos cuja autenticidade não esteja estabelecida.
- Utilizar os mecanismos de denúncia das plataformas quando houver indícios de violação das regras.
No caso de conteúdos que possam comprometer a integridade do processo eleitoral, o TSE disponibilizou o Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral, conhecido como Siade, para receber relatos da sociedade e encaminhar casos pertinentes às plataformas digitais.
O sistema possui finalidade específica: denúncias envolvendo candidaturas ou partidos que estejam fora do escopo do serviço podem ser arquivadas.
O risco continua depois das eleições?
Sim. O fim da votação não elimina a possibilidade de circulação de vídeos manipulados ou publicações fora de contexto.
Discussões sobre resultados, decisões judiciais, manifestações políticas e declarações de autoridades podem continuar gerando conteúdos que exigem verificação.
Isso não significa que toda publicação controversa seja falsa ou que toda denúncia pública represente desinformação.
Questionamentos legítimos devem ser analisados com base em documentos, informações oficiais e evidências verificáveis.
A mesma cautela vale para vídeos autênticos apresentados com legendas enganosas. Uma gravação verdadeira pode produzir uma interpretação falsa quando seu contexto é omitido ou modificado.
A expansão da inteligência artificial torna essa distinção ainda mais importante.
Antes de acreditar ou compartilhar uma gravação política, a pergunta fundamental não deve ser apenas se o vídeo parece real, mas se é possível comprovar quando, onde e em quais circunstâncias ele foi produzido.
Essa verificação ajuda a reduzir a circulação de informações enganosas e fortalece o acesso dos brasileiros a conteúdos confiáveis, dentro e fora dos períodos eleitorais.
